terça-feira, 27 de março de 2007

Ausência

Professores e colegas:

Assim como ocorreu na noite de ontem, não estarei presente nas aulas de Radiojornalismo 2 e Ética, logo mais à noite, pois estarei cobrindo (perdoem o gerúndio...) o IV Seminário Exu em Debate: da compreensão à superação da ignorância", para a TVE, no auditório da faculdade Visconde de Cairú.
Abraços em todos, Murilo!

sábado, 17 de março de 2007

Apelo de quem quer ser Amado

"Aprender é bom. Aprender e fazer melhor ainda." A frase ilustra a mais nova campanha publicitária das Faculdades Jorge Amado, onde curso Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo, há quatro semestres, em Salvador-BA. Em áreas estratégicas da capital baiana, as placas de publicidade que divulgam a instituição podem ser vistas nos pontos de ônibus, nos outdoors e nos intervalos das programações do rádio e da TV, afinal, já sabemos que a propaganda é a alma do negócio, e o negócio, bem, como posso dizer? Sim, o negócio é a alma da faculdade.
Nada contra a publicidade e a propaganda. Uma faculdade privada não é apenas uma instituição de ensino, assim como nós, estudantes, não somos apenas alunos. Faculdades também são empresas e alunos, dessa forma, também são clientes. Seria ingenuidade demais desconsiderar esses fatos. Há um mercado a ser explorado por essas instituições, logo, a publicidade é fundamental, como dois e dois são cinco.
Mas penso que as premissas do capitalismo têm limite. Acreditem quando digo que tal sistema não é tão eficaz assim, até porque necessita da competência humana para administrá-lo, como todos os outros, habilidade que falta nas mentes dos atuais diretores da Jorge Amado. Gestores que sequer conheço, não sei quem são, pois nunca julgaram importante estabelecer um contato mais humano com os estudantes da faculdade que administram, responsáveis pela vida confortável e endinheirada que levam. Explico.
Há três semestres, a vida acadêmica cá nas bandas da Avenida Paralela era melhor (creiam calouros, creiam!). A estrutura da faculdade sempre foi relativamente boa. Professores e alunos contam com elevadores, temos laboratórios de informática exclusivos para cada curso, muito embora raramente funcionem perfeitamente, conseqüência dos computadores sucatados e dos programas piratas que atuam neles todos os dias.
A área externa da Jorge Amado, só para que vocês tenham idéia, aguça a fantasia dos mortais curiosos que passam de ônibus e carros do lado de fora. Uma conhecida me perguntou certa feita, se havia um shopping mesmo por detrás daqueles vidros espelhados e pós-modernistas que recobrem os prédios. Outros, mais criativos, imaginam que entre uma sala de aula e outra, pertinho do banco Bradesco, temos à disposição profissionais da massoterapia para aliviar nossas apurrinhações, casa de suingue e restaurantes que servem sushi.
Ocorre que temos um abismo entre a realidade e a ficção. Recentemente, professores, doutores e mestres foram demitidos sem nenhuma justificativa plausível no decorrer do semestre passado. A explicação mais coerente que nos surge, está relacionada ao fato de que tais profissionais custam mais caro aos cofres da faculdade/empresa. As notas de esclarecimento da instituição são tão convincentes como os discursos de Paulo Maluf no período eleitoral, salvo que o ex-prefeito de São Paulo, ao menos, aparece para tentar se explicar, em vez de unicamente recorrer a juristas e assessores para redigir textos previsíveis aos alunos e à imprensa.
O mais novo absurdo ligado a instituição diz respeito a alterações no mínimo questionáveis em algumas cláusulas do contrato de adesão, documento assinado por nós alunos no momento de efetivarmos a matrícula. Mudanças funcionalistas de um semestre para o outro, assim, de uma hora para outra, pois eles sabem que caso não concordemos com algo imposto e decidamos não assinar os termos, simplesmente não podemos freqüentar as aulas. Trata-se, portanto, de uma chave de cadeia, uma imposição autoritária que me fez lembrar o integralismo estado-novista de Getúlio Vargas, quando o acesso do povo a informação era manipulado. Que alterações são essas?
A mais significativa, no meu entender, fere os direitos dos estudantes de Comunicação Social. No semestre passado, os filmes das máquinas fotográficas e a revelação dos mesmos estavam inclusos na pomposa quantia mensal que depositamos no setor financeiro da faculdade religiosamente, algo em torno de R$ 800, sem contar os nossos gastos com textos na copiadora, alimentação, transporte... Já nesse semestre, o 2007.1, a inovação arbitrária dos “especialistas em propaganda” é o corte desses equipamentos básicos às atividades exigidas pelos professores, sob a alegação de que se trata de materiais de insumo, utilizados individualmente e que devem assim ser custeados adivinhe por quem?
O curioso é que no semestre passado esses mesmos materiais não eram considerados de insumo, ou ao menos já estavam inclusos na mensalidade cara que pagamos. Existe algum critério em tal decisão? Longe dos meus colegas e deste mero representante que vos escreve nos assemelharmos aos sauditas fundamentalistas que apedrejam as mulheres adúlteras até a morte sem ao menos ouvi-las em seus argumentos. Vamos tentar entender o argumento e o critério da instituição nesse caso. Sejamos cristãos ao menos nesse momento. Mas, se o filme e a revelação não são cobrados em um semestre e o são no posterior, fica difícil não cair na tentação de ser herege. Parece mágica. O que é insumo em um semestre no outro não era.
E o que vem a ser considerado insumo? O papel higiênico dos banheiros, por exemplo, serve a interesses coletivos, mas são usados individualmente, como os tais filmes, segundo o meu singelo conhecimento. Ao menos não me recordo de ter dividido os que utilizo com colega algum, o que não duvido que aconteça no próximo semestre, quando provavelmente teremos mais mudanças no contrato de adesão e este utensílio básico a higiene humana venha a se tornar insumo. Imagino como seria. Enquanto um de nós descarrega no pobre do vaso sanitário aquele caruru do meio-dia, o outro bate na porta do banheiro, atônito e pergunta: “Já usou o papel? Vê se não demora, depois é a minha vez e precisamos dividir...” Já pensou que cagada?
Sim, porque atualmente, temos que fazer os trabalhos de fotografia em dupla, pois assim podemos dividir o custo da revelação e do filme, responsabilidade que a instituição devia ter, mas que ficou somente nos registros de outra bela campanha publicitária da faculdade intitulada “Responsabilidade Social”. Hoje funciona da seguinte maneira: enquanto o colega dispara seus flashes o outro o espera terminar, para só então realizar o trabalho. A revelação das fotos de ambos precisa ser feita em um único filme dividido para os dois, para que o custeio seja menos abusivo.
A professora e hoje coordenadora do curso de Comunicação Social, Mônica Rodrigues, já foi informada do nosso descontentamento em mais de uma oportunidade. Conceituada jornalista que trabalhou na Folha de São Paulo, na época em que o jornal da família Frias não era feito apenas para os interesses da classe média como hoje, ela acaba de assumir uma função nada tranqüila, levando-se em consideração a inércia e ineficácia dos antigos coordenadores. Mônica me parece ser uma democrata. Em poucos dias à frente da coordenação do curso, já conversou conosco em três oportunidades, o que nos fez extremamente surpresos porque a capacidade de dialogar não era uma das virtudes dos outros coordenadores, que fugiam de nós como se fôssemos demônios, comunistas, petistas ou transgêneros nos outros semestres.
O problema é que ser democrata em uma ditadura não é suficiente. Há uma hierarquia a ser respeitada, limites quanto o poder de decisão. Os diretores administrativos, situados cada qual em uma torre de marfim impõe. As coordenações dos cursos acatam e nos comunicam sobre as novidades deploráveis de cada semestre e tentam tornar o ambiente de professores e alunos o mais harmônico possível. E nós, fazemos o quê?
Até então não fazíamos nada, mas a ausência de uma ética da responsabilidade no chamado alto escalão das Faculdades Jorge Amado nos violenta a tal ponto, de darmos um basta a toda essa situação. Submetemos o atual contrato de adesão a uma jurista, que nos garantiu que há inconstitucionalidades em algumas das cláusulas, o suficiente para nos fazer lutar. Primeiramente, vamos emitir um ofício a coordenadora, que nos garantiu entregá-lo aos superiores, aos homens que criam as leis por aqui. A princípio, vamos apenas manifestar nosso repúdio a determinadas medidas da instituição, além de apontarmos o que julgamos incoerente na nossa concepção. As instâncias judiciais só entram em cena caso não sejamos ouvidos e as nossas reivindicações não sejam prontamente analisadas e consideradas.
Tudo isso porque sabemos que os recentes escândalos que assolaram a faculdade criaram uma imagem negativa da instituição perante o mercado de trabalho e órgãos de imprensa, de forma geral. São diversos os casos de alunos que não são aceitos em estágios à medida que o empregador percebe no currículo a procedência acadêmica do candidato a vaga. Na turma onde estudo, apenas seis colegas (incluindo eu) estão juntos desde o primeiro semestre. Os demais migraram para faculdades como a ISBA e FIB, que investem menos em propaganda e mais em qualidade de ensino.
Os nossos professores são excelentes. É o que ainda nos motiva a continuar aqui. Não queremos mudar de faculdade antes de lutar para modificar o que pode ser corrigido. Queremos ser Amados também. Nosso objetivo não é difamar a faculdade onde estudamos e buscamos preparo para solucionar os problemas da sociedade. Mas é que está na hora de pararmos com essa mania de comparar a Jorge Amado com as outras instituições privadas. As pessoas costumam dizer: “Sim, sim, mas na FTC é pior... Já dei aula na Castro Alves e lá sim é dureza...” A Jorge Amado precisa ser comparada a ela mesma. Ao que era quando nasceu e no que se tornou.
No atual momento, estamos submergidos em um oceano infinito de contradições. Até o nome da faculdade não condiz com as atitudes que temos visto. Jorge Amado não era comunista? O General Costa e Silva, presidente da república famoso por instituir o AI-5 no sangrento ano de 1968, em um dos períodos mais opressores de nossa história é quem deveria ter o nome no lugar do de Jorge Amado. Seria mais justo com o escritor baiano e com o próprio General.
Expormos o nome da faculdade onde estudamos aos programas sensacionalistas da mídia baiana não seria bom para nenhuma das partes. Isso já foi feito recentemente e o resultado só arranhou a imagem da Jorge Amado e a reputação dos estudantes oriundos dela, mas não cicatrizou nossas chagas. Uma atitude como essa só pode ser aplicada quando todas as alternativas já foram tentadas. Não queremos isso, mas também não arriscamos dizer que não vamos fazê-lo em caso de indiferença.
Não pode ser tão difícil assim. Basta que o novo carro-chefe das maravilhosas campanhas mercadológicas e publicitárias da faculdade seja incorporado, intensamente, pelos diretores da instituição. Afinal, o talento dos nossos Washington’s Oliveto e Duda’s Mendonça não pode ser tão desperdiçado assim, ficando restrito nas inscrições de outdoors, pontos de ônibus e intervalos das programações tanto do rádio como da televisão. Não é mesmo? Queremos ser Amados também. Quanto aos responsáveis por tudo isso, precisam perceber melhor que “Aprender é bom. Aprender e fazer melhor ainda.”

domingo, 11 de março de 2007

Recados para a semana

Fotojornalismo - Segunda-feira 12.03

Na aula de Atelier de Fotojornalismo, amanhã, o professor Nelson não irá nos cobrar o trabalho realizado na Feira de São Joaquim, há duas semanas, juntamente com o texto. A avaliacão completa deverá ser entregue no dia 19 deste mês. De qualquer forma, ele aproveita a aula de amanhã para analisar as revelacões que fizemos e dar conselhos sobre o material que devemos utilizar na avaliacão para ser entregue.
Ética e Radiojornalismo 2 - Terca-feira 13.03
O professor Marcos Dias comenta conosco o texto ''Ética e Política'', já a disposicão na pasta 161, no prédio em que nós estudamos.
A professora Silvana Moura recebe os relatórios sobre as feiras de quem ainda não entregou.
Assessoria de Comunicacão - Quarta-feira 14.o3
A professora Bárbara de Souza apresenta asuntos referentes aos nossos temas quanto as apresentacões de seminários, que comecam no dia 21.03, quarta-feira da semana que vem.
Ética e Radiojornalismo 2 - Quinta-feira 14.03
Marcos Dias deve dar aula normal. Provavelmente, deve sugerir algum texto para ser aplicado na aula na terca-feira, 13.03, ou seja, na aula que antecede a de quinta.\
Já na aula de rádio, comecam os seminários sobre os capítulos do livro ''Manual de Radiojornalismo da Jovem Pan''. O livro, por incrível que pareca, está a disposicão na biblioteca da faculdade...
Atelier de Producão de Texto 3 - Sexta-feira 15.03
A professora Beatriz Ribas assiste as primeiras apresentacões relacionadas aos capítulos do livro ''Meio Ambiente no Século XXI''. Nossos blogs precisam ser atualizados.
Boa semana a todos os professores e colegas!

sexta-feira, 2 de março de 2007

Recados

Recado I

Logo mais à noite, na aula de Atelier de Produção de Texto 3, a professora Beatriz Ribas confere as notícias sobre meio ambiente que conseguimos ver veiculadas aos telejornais brasileiros durante a última semana, além de prosseguir com as primeiras lições a respeito de como lidarmos com os nossos blogs acerca deste mesmo tema. A aula inicia às 19h e segue sem intervalo até às 22h.
Recado II

Amanhã, sábado, às 8h30, o professor Nelson nos espera no estacionamento Sol Park, ao lado da Feira de São Joaquim para a nossa primeira avaliação prática do semestre na disciplina Fotojornalismo 2. O trabalho é em dupla e os filmes serão custeados por nós mesmos, segundo decisão da coordenação do curso para este semestre. Como já sabemos, a justificativa se apóia no argumento de que a faculdade não pode arcar com material de consumo dos estudantes. Assim, a revelação dos filmes também sairá do nosso próprio e sofrível bolso... Dessa forma, logo, logo, eles darão um jeito de não disponibilizar papel higiênico nos banheiros, luz elétrica e folha para as provas semestrais sob a mesma argumentação... A turma pode marcar para se organizar com os colegas inconformados na parte da manhã e manifestar nosso descontentamento com tal atitude da istituição. Conversamos na sala de aula sobre isso. Basta querer!

quinta-feira, 1 de março de 2007

Texto para a aula de Ética de hoje!!!

Razão e sensibilidade
O filósofo e estudioso do iluminismo Renato Janine Ribeiro repensa a pena de morte à luz da morte de João Hélio

RENATO JANINE RIBEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA 18.02.07

Escrever sobre o horror em estado puro: assim vivi o convite para participar deste número do Mais!. É insuportável pensar no crime cometido contra o menino João Hélio. E é nisso que mais penso, nestes dias. Não me saem da cabeça duas ou três coisas. A primeira é o sofrimento da criança. Se há Deus, e acredito que haja, embora não necessariamente antropomorfo, como admite Ele esse mal extremo, gratuito, crudelíssimo?
Se a alma ou o espírito tem um destino após a morte, chame-se esse de juízo eterno ou de uma série de reencarnações, como poderá esse infeliz menino ser recompensado pela vida que lhe foi ceifada, não apenas tão cedo, mas, além disso, de modo tão bárbaro?
Essas são questões religiosas, ou melhor, de fé. E quanto aos assassinos? A outra coisa que não me sai da cabeça é como devem ser punidos. Esse assunto me faz rever posições que sempre defendi sobre (na verdade, contra) a pena de morte.
Anos atrás, me convidaram a escrever um artigo para uma revista de filosofia contra a pena de morte. Perguntei então: mas alguém escreverá a favor? E me responderam que era possível, por que não? Acabei escrevendo meu artigo (contra a pena capital), mas este caso horrível me faz repensar ou, melhor, não pensar, sentir coisas distintas, diferentes.


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Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido
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Se não defendo a pena de morte contra os assassinos, é apenas porque acho que é pouco. Não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte. Todo o discurso que conheço, e que em larga medida sustento, sobre o Estado não dever se igualar ao criminoso, não dever matar pessoas, não dever impor sentenças cruéis nem tortura -tudo isso entra em xeque, para mim, diante do dado bruto que é o assassinato impiedoso.
Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido. Conheci o sr. Masataka Ota, pequeno empresário cujo filho pequeno foi assassinado. Entrevistei-o para meu programa de ética na TV Futura (episódio "Justiça e Vingança"). Masataka perdoou os assassinos, isto é, embora pudesse matá-los, não o fez.
Quis que fossem julgados e lamenta que já estejam soltos, poucos anos após o crime hediondo, mas ele é um caso raro -e admirável- em não querer se vingar, em não querer que os assassinos sofram mais do que a pena de prisão. Confesso que não seria a minha reação.

Quem é humano?
Penso -porque ainda consigo pensar, em meio a esse turbilhão de sentimentos- também que há diferentes modos de impor a pena máxima. A punição com a morte se justifica ora pela gravidade do crime cometido, ora pela descrença de que o criminoso se possa recuperar. No caso, as duas razões comparecem. Parecem irrecuperáveis, e seu crime é hediondo. Não vejo diferença entre eles e os nazistas.
Creio que só um insensato condenaria as execuções decretadas em Nuremberg. Há, hoje, quem debata se Luís 16 deveria ou não ter sido guilhotinado: dizem alguns que o melhor seria reduzir o último rei absoluto da França a um cidadão privado, um pouco como a China (curiosamente, campeã em execuções) fez com Pu Yi, seu derradeiro imperador. Mas Luís era culpado apenas de ser rei. Pessoalmente, era um homem bom. Os nazistas foram culpados do que fizeram. Optaram pelo mal. Como esses assassinos.
Em países como os Estados Unidos, a demora na execução é ela própria uma parte -talvez involuntária- da pena. Alguém passa 20 anos no corredor da morte, e é executado quando já pouco tem a ver com quem foi. Na Inglaterra, antes de abolir a pena de morte, era diferente: dois ou três meses após o crime, o assassino era enforcado. Nos dois países, a garantia de todos os direitos de defesa ao réu faz parte, por curioso que pareça, da engrenagem que diz ao acusado: você terá todos os direitos, mas não escapará.
No Brasil é diferente. Não temos pena de morte, na lei. A Constituição a proíbe. Mas provavelmente executamos mais gente que o Texas, o Irã ou a China. É que o fazemos às escondidas. Quando penso que, desses infanticidas, os próprios colegas de prisão se livrarão, confesso sentir um consolo. Mas há algo hipócrita nisso.
Se as pessoas merecem morrer, e se é péssimo o Estado se igualar a quem tira a vida de outro, por outro lado é uma tremenda hipocrisia deixar à livre iniciativa dos presos ou aos justiceiros de esquina a tarefa de matar quem não merece viver. Abrimos mão da responsabilidade, que pode ter uma sociedade, de decidir -no caso, quem deve viver e quem merece morrer. Tudo isso traz questões adicionais. É-se humano somente por se nascer com certas características? Ou a humanidade se constrói, se conquista -e também se perde? Alguém tem direito, só por ser bípede implume, de fazer o que quiser sem perder direitos? A todos assiste o direito da mais ampla defesa.
Mas, garantida esta, posso fazer o que quiser sem correr o risco da pena última? Isto, que relato, põe em questão meu próprio papel como intelectual. Intelectual não é apenas quem tem uma certa cultura a mais do que alguns outros. É quem assina idéias, quem responde por elas. Tive, na graduação, uma amiga que teve bloqueio de escrita. Mas, na verdade, ela até fazia trabalhos -de graça- para outros colegas. Seu bloqueio não era de escrita, mas de assinatura. Talvez possa dizer: o cientista escreve, o intelectual assina.
O intelectual é público. Só que, para ele cumprir seu papel público, é preciso acreditar no que diz. Ora, quantas vezes o intelectual afirma aquilo em que não acredita? Quantos não foram os marxistas que se calaram sobre os campos de concentração, que eles sabiam existir? Por isso, o mínimo que devo fazer, se sou instado a opinar, é dizer o que realmente penso (ou, então, calar-me).
Sei que a falta de perspectiva ou de futuro é o que mais leva pessoas a agirem como os infanticidas. Sei que devemos reformar a sociedade para que todos possam ter um futuro. Creio que isso reduzirá a violência. Mas também sei que os pobres são honestos, mais até do que os ricos. A pobreza não é causa da falta de humanidade. Quer isso dizer que defenderei a pena de morte, a prisão perpétua, a redução da maioridade penal? Não sei. Não consigo, do horror que sinto, deduzir políticas públicas, embora isso fosse desejável.
Mas há algo que é muito importante no exercício do pensamento: é que atribuamos aos sentimentos que se apoderam de nós o seu devido peso e papel. Não posso pensar em dissonância completa com o que sinto. A razão, sem dúvida, segura muitas vezes as paixões desenfreadas. Quantas vezes não nos salvamos do desespero, do desamparo, do ódio e da agressividade, apenas porque a razão nos acalma, nos contém, nos projeta o futuro?
Que crimes o amor desprezado não causaria, não fosse ele contido pela razão? Mas isso vale quando a dissonância, insisto, não é completa. Se o que sinto e o que digo discordam em demasia, será preciso aproximá-los. Será preciso criticar os sentimentos pela razão -e a razão pelos sentimentos, que no fundo são o que sustenta os valores. Valores não são provados racionalmente, são gerados de outra forma. Afinal de contas, o que vivemos no assassínio bárbaro de João Hélio, como meses atrás quando queimaram viva uma criança num carro, não é diferente do nazismo.
Dizem uns que o Brasil está como o Iraque. Parece, pior que isso, que temos algumas mini-auschwitzes espalhadas pelo território nacional.


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RENATO JANINE RIBEIRO é professor de Ética e Filosofia Política na USP e autor de, entre outros, "A Ética na Política" (ed. Lazuli).

Apresentação

Caros professores e colegas:
Como prometido, acabo de criar o blog de nossa turma. Trata-se de uma via de comunicação mais organizada e segura do que um simples e-mail, além de possibilitar a interação de professores e colegas durante este semestre por meio da internet. Portanto, os recados de todos aqueles que estão envolvidos com a nossa classe podem ser agora publicados neste espaço. Avisos dos mestres e alunos, textos referentes às disciplinas, informações importantes para o nosso conhecimento, registros dos acontecimentos que nos incomodam e estimulam em sala de aula.
Para postar no nosso blog, basta me enviar o e-mail pessoal de cada um de vocês. Em seguida, vocês receberão na caixa postal eletrônica o convite para criar uma senha. Dessa forma, professores e colegas podem publicar tudo o que for de interesse comum na hora que bem entenderem. Qualquer dúvida, entrem em contato comigo pessoalmente!
Grande abraço do Murilo!